O RIO DA PRATA

O rio que se tornou foco das disputas políticas na América do Sul

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GUERRA RÁPIDA

Todos imaginavam uma guerra rápida, mas foi um longo e sofrido conflito.

PERSONAGENS DA GUERRA

Além dos soldados, mulheres e até crianças viveram nos acampamentos de guerra

HISTÓRIA

A última Guerra do Prata

Maior conflito armado da história da América do Sul, a Guerra do Paraguai ainda suscita polêmicas e interpretações que desafiam os historiadores dos quatro países envolvidos. O documentário A Última Guerra do Prata lança um olhar mais atual sobre os acontecimentos que levaram aos combates e as consequências da Guerra contra o Paraguai

O documentário é parte de uma série produzida pela TV Escola, que apresenta as análises e pesquisas mais recentes a respeito da Guerra do Paraguai, o maior conflito bélico já ocorrido na América do Sul. Uma das primeiras guerras totais da história, a Guerra do Paraguai mudou o destino dos países envolvidos e seus impactos foram tão marcantes que geraram intensos debates ideológicos e historiográficos durante todo o século XX. As causas e motivos dessa guerra produziram diversas teses, inúmeros argumentos e tornaram seus principais personagens ora vilões, ora heróis.



O programa Sala de Professor teve uma edição especial contando apenas com professoras de História. Elas desenvolveram um trabalho que faz um recorte a respeito das consequências da Guerra para o Brasil, bem como um debate em torno das diferentes formas de apropriação das imagens construídas, ao longo do tempo, em torno dos personagens principais do conflito.

Diversos conflitos marcaram a América do Sul após as independências dos países

A primeira metade do século XIX foi marcada pela independência de várias nações sul-americanas e pela instabilidade política da região, com muitas disputas por poder e delimitações bastante instáveis de fronteiras.

O Rio da Prata, que dá acesso a cinco países do continente – Argentina,

Brasil, Bolívia, Paraguai e Uruguai –, foi o principal foco das disputas regionais nesse período. Foi para garantir a navegação nos rios Uruguai, Paraná e Paraguai, por exemplo, que o Brasil, ainda sob governo português, invadiu o Uruguai e o anexou em 1817. Contra esse domínio brasileiro, os argentinos de Buenos Aires declararam guerra ao

Império Brasileiro em 1825, dando origem à Guerra Cisplatina. Ao fim do conflito, que teve a Argentina ao lado dos uruguaios, em 1828, o Brasil teve que reconhecer a República Oriental como um estado independente.

A disputa pela hegemonia na região do Prata e pelo poder de influência no Uruguai voltaria a colocar brasileiros e argentinos em combate, na Guerra do Prata, de agosto de 1851 a fevereiro de 1852. Nesse caso, foi o Brasil que buscou frear o anseio de crescimento de Buenos Aires, governada por Juan Manuel de Rosas, que tentou impor seu aliado, Manuel Oribe, no governo do Uruguai e assim dominar o acesso ao Rio da Prata.

O Império brasileiro se aliou aos oponentes de Oribe no Uruguai e às províncias de Entre Rios e Corrientes, lideradas pelo caudilho Justo Jose de Urquiza, e derrubaram Juan Manuel

de Rosas do poder em Buenos Aires. A vitória do Brasil na Guerra do Prata deu alguns anos de tranquilidade ao país, enquanto conflitos internos eclodiram no Uruguai e na Argentina.

Durante o período de intensas disputas internas e externas nos países vizinhos, o Paraguai viveu um período de isolamento completo durante a ditadura de José Gaspar Rodríguez de Francia, entre 1814 e 1840, quando ele fechou o país para evitar as ameaças de intervenção vindas e Buenos Aires. Em 1844, Carlos Antonio López, representante das oligarquias paraguaias, foi eleito indiretamente o primeiro presidente constitucional

do Paraguai e até sua morte, em 1862, governou o país buscando recolocá-lo no mercado internacional e modernizando suas estruturas, importando engenheiros e técnicos ingleses que levantaram, entre outras coisas, a primeira ferrovia paraguaia.

Após a morte de Carlos Antônio López, seu filho, Francisco Solano López, se impôs como presidente paraguaio e investiu em uma nova política internacional na qual o Paraguai deveria ter mais peso na política da região. Para assumir esse novo papel, Solano López construiu o maior exército da região e buscou alianças.

A invasão do Uruguai pelo Brasil foi a justificativa para Solano López invadir o Mato Grosso

Desde sua independência, em 1828, o Uruguai viveu a intensa disputa entre duas facções políticas: os Blancos e os Colorados. As divergências eram tão profundas que lançaram o país em sangrentas guerras civis que dividiam o país. Após a Guerra do Prata, em 1852, a situação foi aparentemente tranquilizada por cerca de uma década.

Em 1860, o Partido Blanco assume o poder no Uruguai e começa um governo que vai impulsionar problemas internos e externos. Buenos Aires vê no governo Blanco um possível aliado para as províncias argentinas que ainda poderiam se revoltar contra a capital – lideradas por Entre Rios, governada por Justo Jose de Urquiza. Secretamente, o presidente argentino Bartolomeu Mitre incentiva o líder do Partido Colorado, Venâncio Flores, a iniciar uma nova guerra civil do Uruguai e derrubar o governo Blanco.

Outra ação do governo Blanco foi dificultar o trabalho dos produtores de gado do Rio Grande do Sul que ocupam terras no Uruguai: não renova o Tratado de Comércio e Navegação de 1851; aumenta os impostos; proíbe o trabalho escravo; e não devolve os fugitivos das fazendas de brasileiros. Em 1864, a situação é tão tensa que os gaúchos vão ao Imperador Dom Pedro II para solicitar a intervenção do Império no país vizinho, acusando o governo uruguaio de perseguição, confisco e assassinato de brasileiros.

Dom Pedro II no princípio não vê motivos para intervir. Mas diante da pressão gaúcha e da possibilidade de uma revolta semelhante à Farroupilha (1835-1845), o Imperador dá um ultimato ao então presidente do Uruguai, Atanasio Cruz Aguirre, ameaçando invadir o país se os direitos dos brasileiros não fossem restabelecidos e respeitados.

O governo Blanco uruguaio conseguiu desagradar tanto brasileiros quanto argentinos e fez o impensável até aquele momento, unir os dois rivais em um propósito em comum: derrubar o governo uruguaio e colocar em seu lugar o partido Colorado de Venâncio Flores.

Para fugir das pressões de Brasil e Argentina, o governo uruguaio busca o apoio do Paraguai e estimula o envolvimento de Solano López afirmando que seu país seria o próximo alvo dos poderosos vizinhos. Em troca do apoio, além da maior influência política regional que Solano López queria, os uruguaios oferecem o suporte do Porto de Montevidéu para que o país fizesse comércio com o mundo. Era a garantia da sonhada saída para o mar.

Ao receber o ultimato brasileiro, o presidente uruguaio Aguirre rompe as relações com o Brasil e ainda envia a ameaça brasileira a Francisco Solano López. López, interessado em manter os blancos no poder do Uruguai e dono do maior exército no continente na época, defende a República Oriental e, por sua vez, dá um ultimato ao Brasil.

O Brasil ignora a ameaça paraguaia e invade o Uruguai. Solano López, então, declara guerra ao Brasil. Em dezembro de 1864, o Paraguai invade o Mato Grosso. López esperava contar com o apoio dos blancos, no Uruguai, e dos federalistas, na Argentina, para poder fazer frente ao Império Brasileiro.

Mas enquanto o conflito no Uruguai já estaria terminado em fevereiro de 1865 — com os colorados colocados no poder —, a Guerra do Paraguai iria durar bem mais do que todos esperavam.



Entre 1864 e 1870, a América do Sul mergulhou em um confronto que deixou mais de 350 mil mortos

O maior conflito armado da história da América do Sul começou com a invasão do Mato Grosso pelo Paraguai, em dezembro de 1864, e se arrastou até a morte de Francisco Solano López, em março de 1870. Ao longo de cinco anos e quatro meses

de confrontos, mais de 350 mil pessoas foram mortas, sendo 50 mil brasileiros, 18 mil argentinos e cerca de 300 mil paraguaios, entre militares e civis. Ao contrário do que se possa imaginar, a maioria das fatalidades não ocorreu em batalhas, mas

sim decorrentes das péssimas condições de higiene, abrigo e abastecimento dos acampamentos. O frio, a fome e as doenças foram mais fatais que as balas na Guerra do Paraguai.

Entre os milhares de soldados aliados e paraguaios, muitas mulheres participaram da Guerra do Paraguai

Considerada um dos primeiros confrontos “totais” da história, a Guerra do Paraguai contou com a participação de mulheres nos dois lados do conflito. Tanto nas tropas paraguaias quanto nas aliadas, elas estavam presentes: esposas, mães, comerciantes, prostitutas, escravas e prisioneiras.

Em Tuiutí, o gigantesco acampamento aliado no Sul do Paraguai, as mulheres brasileiras eram parte do cotidiano, realizando funções essenciais para a sobrevivência das tropas: cozinhavam, lavavam, cuidavam dos feridos, vendiam alimentos e bebidas. Havia mulheres de diversas classes sociais, desde as esposas de oficiais até uma multidão de mulheres comuns.

Muitas se dedicaram a vender objetos de primeira necessidade e prestar serviços, eram chamadas de vivandeiras.

Do lado paraguaio, as mulheres foram as responsáveis por produzir os alimentos que o exército e o país precisavam durante o período de guerra. Organizadas em tropas semelhantes às forças militares, as chamadas Residentas sustentaram a produção de alimentos do país enquanto a população masculina era mobilizada para as batalhas. As mulheres comandaram a produção e o comércio do Paraguai em guerra. Após o conflito, as mulheres seguiram como principal força de

trabalho no Paraguai. Porém, apesar do papel relevante na reconstrução do país, as mulheres não conquistaram poder político no Paraguai.

Outras personagens femininas importantes no Paraguai foram as chamadas Destinadas, que eram as familiares de réus políticos e acusados de traição por Solano López. Elas eram obrigadas a seguir as tropas paraguaias e submetidas a trabalhos forçados em campos de prisioneiras no interior do país. Estima-se que entre três e quatro mil mulheres passaram por esses campos. Cerca de 400 sobreviveram.

Ricos, pobres e escravos fizeram parte da formação do Exército Brasileiro na campanha da Guerra do Paraguai

No início do conflito com o Paraguai, em 1864, o Exército Brasileiro possuia 18 mil membros, contra 70 mil do Exército Paraguaio. Para conseguir formar tropas para a guerra, o Império criou, em janeiro de 1865, o Corpo de Voluntários da Pátria. Inicialmente, parte da elite brasileira se voluntariou, seduzida pelo glamour da campanha, que imaginava seria rápida e com poucas baixas.

A maior parte dos brasileiros que foram à guerra, porém, era formada por pessoas das classes mais baixas da população, que foram atraídas pelos benefícios prometidos pelo Império: soldo durante a campanha, pensões ao retornarem, terras em colônias agrícolas ou militares e facilidade no acesso ao serviço público. Na segunda metade do Século 19, a população brasileira era de cerca de 18 milhões de habitantes, sendo a

maior parte composta por negros e pardos livres que estavam exatamente na camada mais pobre e que formaram a base do Exército Imperial.

A população de escravos naquela época era de cerca de 1,5 milhão de pessoas. Para eles, o Império ofereceu a alforria em caso de alistamento nas tropas. Porém eles só poderiam entrar no corpo de volutários autorizados por seus donos. Alguns foram oferecidos ao Império como prova de patriotismo, já outros foram enviados para substituir os senhores e seus familiares no esforço de guerra - mas esse tipo de contribuição foi muito pequena. Apenas o Império cedeu grande número de escravos, praticamente acabando com a figura do escravo da nação. Portanto, diferente do que foi afirmado por muito tempo, o exército

brasileiro não era formado por escravos cedidos para a guerra. Era formado em sua maioria por negros e pardos livres, porém pobres.

Nas fotografias e documentos recuperados da Guerra do Paraguai é possível comprovar que nos demais exércitos também existiam soldados negros. Tropas argentinas e uruguaias eram compostas por um número significativo de soldados negros. No Exército Uruguaio existiam inclusive oficiais negros.

As tropas paraguaias também contavam com combatentes negros. Na época da guerra ainda exista excravidão no Paraguai. Ela não tinha o papel fundamental de sustentação do Estado, como ocorria no Brasil, e até por isso os negros foram enviados nas tropas de frente de Solano López.

Professores de História podem realizar um projeto para discutir as consequências da guerra em sala de aula

O professor de História pode exibir os três primeiros episódios da série A Última Guerra do Prata e discutir as causas e o desenrolar do conflito com a turma. Em seguida, com o quarto episódio, a turma será dividida em quatro grupos, que deverão, a partir do documentário, explicitar as consequências da Guerra para os países envolvidos.